Pedí a mamãe que
me desse o acordeon que ela comprara para meu irmão e ele não quis, para que eu pudesse aprender a tocar e, ela muito
contrariada com a atitude do Jorge, me deu o acordeon de presente.
De volta das
férias, trazendo meu acordeon, comecei logo a estudar com a professora D.
Lolinha.
Em pouco tempo eu
fazia grande progresso no instrumento e me apaixonei por ele. O pai de D. Lolinha, minha professora, era um velho saxofonista
na cidade e toda vez que me via por lá, estudando o acordeon, corria a buscar
seu saxofone para tocarmos algumas valsas juntos. Eu ainda inexperiente, mas muito interessada,
catava as notas para acompanha-lo, mas nos tornamos grandes amigos.
No Ginásio,
tínhamos aulas de Canto Orfeônico, era como se chamava a matéria música.
O professor
Bastos, marido de D. Lolinha, era quem nos ensinava as primeiras noções de teoria
da música. Era também nosso professor de
latim, francês e português. Gostava
muito de compor as canções da escola e sempre chegava com uma melodia nova, que
eu tratava logo de aprender a tocar, para fazer bonito na escola.
As amigas inseparáveis da infância
A meninada da vizinhança
Tocando acordeon enquanto a turma tricotava
Eu e minha irmã, Biseca e meu acordeon
Estudando o acordeon
O tempo foi
passando, eu sempre com meu acordeon, cantando e me acompanhando, tocando para
os amigos e cada vez mais aprimorando meus conhecimentos de música.
Aos 15 anos, tive
a permissão de trazer um namorado em casa.
Já estávamos mocinhas, mas, sair de casa, só para ir à missa aos
domingos, ir para a escola e, uma vez por ano íamos ao baile no clube, acompanhadas
de tias e madrinhas.
O namoro tinha
que ser em casa sob os olhares atentos.
Biseca, namorando de um lado e eu do outro.

Durou pouco tempo
o meu namoro, pois o acordeon ficara entre nós. Como ele não gostava da minha arte, não foi
difícil para mim decidir ficar com o acordeon.
Mas vovó não
gostou da ideia, moço bom, de família e eu fazendo tamanha desfeita. Um sermão que colocava a certeza de que outro
não entraria ali, senão eu poderia ficar falada.
Pedi aos meus
pais que me levassem com eles por um tempo, afim de acalmar as coisas.
Papai era igual a
ciganos, sempre itinerante, morou em várias cidades, mudando a cada proposta de
melhorar a vida.
Em Governador
Valadares, fui morar com meus pais, onde ficamos durante algum tempo. Um conjunto de casas geminadas, na Ilha do
Governador, lugar bonito, o Rio Doce passando por perto, formava uma prainha
onde ficávamos a maior parte do tempo dentro d’água, para espantar o calor
quase insuportável.
Lá, encontrei
outro professor de acordeon e não perdi tempo.
Continuei aprimorando meus conhecimentos
sobre a música e dominando cada vez mais o meu instrumento. Mas, meus pais desistem de morar naquela
cidade e, mais uma vez retornam a Itabirito.
De volta a Itabirito,
ficamos uns dias na casa da vovó, até decidir para onde eles iam mudar.
Nesse meio tempo,
papai resolveu visitar uns parentes que ele tinha em Pedro Leopoldo e
Matozinhos, eu pedi para ir junto e ele me levou. Lá, conheci tios, primos e primas.
As primas me
receberam muito bem, foram amistosas, e quando eu contei sobre o acordeon e o
quanto eu estudara de música, uma delas disse que tinha um colégio lá, onde a
diretora não conseguia um professor de música, e se propôs a me levar até lá.
Elas mesmas
pediram ao meu pai que me deixasse lá por uns dias e assim foi.
No dia seguinte,
fomos ao tal colégio conversar com a diretora, que se admirou da minha vontade
de ensinar música, pela minha pouca idade.
Naquela época, eu
ainda não tinha completado o ginásio, pois com todas as mudanças, ficou difícil
poder estudar, mas música, era algo que eu entendia bem. A diretora me solicitou uma carta de
apresentação que comprovasse a minha aptidão para aquele cargo.
Hoje penso como
as coisas eram diferentes naquele tempo, como eu poderia lecionar sem concluir
curso, pós graduação e tudo o mais que se exige atualmente.
Muito satisfeita,
voltei a Itabirito e fui procurar meus velhos professores, Zé Bastos e D.
Lolinha que, não só me deram a tal carta, como me presentearam com alguns
cadernos de planos de aula do professor.
Voltando aquela
cidadezinha, comecei a trabalhar no colégio, onde seguia estudando também.
Naquela época era
tudo muito diferente de hoje em dia, eu com apenas quinze anos, já podia
assumir aquela responsabilidade, por não ter quem pudesse ocupar o cargo.
À noite, arranjei
alguns alunos de acordeon, particular e ia de casa em casa ensinar. Quase não tinha tempo nem de comer, mas
estava satisfeita com meu próprio progresso.
Os outros primos que moravam na cidade vizinha, Pedro Leopoldo, eram
mais amáveis ainda e tanto fizeram que fui morar com uma das primas, casada e
as outras moravam por perto. Dificultou
um pouco pra mim por ter que pegar o ônibus para ir trabalhar e voltava só quase à noitinha. Carinhosamente a prima Neusa fazia um prato
de comida e deixava no canto do fogão para quando eu chegasse poder
jantar. Mesmo assim , arranjei mais
alunos de acordeon, me esforçava muito, mas estava feliz.